Politicar


A trupe do PT

Rosto pintado de branco, narizes vermelhos, camisetas listradas, sapatos coloridos e muita graça. Na entrada do 3º Congresso Nacional do PT, iniciado ontem (31/08), em São Paulo, dois palhaços recebem os militantes e procuram descontrair o clima do encontro, naturalmente tenso pelo andamento das apurações do mensalão. “Ninguém neste país tem mais autoridade moral, ética e política que o nosso partido”, falou o homem barbado da trupe, em tom fera acuada diante da roda de fogo.

Do lado de fora o clima é mais ameno, com os dois palhaços engraçadinhos. Talvez divirta os militantes, mas, para quem vê de cá, a cena parece mesmo uma provocação, para lembrarmos da nossa situação diante do governo petista. Uma substituição provavelmente não melhoraria o quadro. Se colocassem trapezistas, a analogia seria ao fato de ficarem em cima do muro diante da corrupção, das ameaça de congelamento salarial por dez anos do PAC, das privatizações iniciadas e prestes a começar com as reformas, etc e tal; além da posição em que de nós ficarmos, na corda bamba diante de um governo tão fragilizado (e não poderia ser diferente) e suscetível à influência da direita. Se pusessem sombras, pareceria que assumiram de vez o posto de seguidores do governo peessedebista.

Claro que não esqueço da argumentação mais clássica dos petistas: O governo não é o PT. De fato, existem dentro do partido correntes distintas e minoritárias que não saem da platéia na administração de Lula, como a tendência Esquerda Marxista (antigo Trabalho), que marca presença reivindicando, por exemplo, o fim do pagamento da dívida externa. Os que desejam sinceramente esse tipo de bandeira figuram no Congresso e no PT como os animais do circo: tem quem se divirta com eles, mas a verdade é que só fazem sofrer e estariam muito melhores em outro lugar.


Escrito por Lena Costa Carvalho às 21h47
[ ] [ envie esta mensagem ]


A universidade e as cegueiras


Há mais de um mês a ameaça de nova greve ronda a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Quase anual, considerada por muitos como parte do calendário acadêmico, a idéia da paralização de professores e servidores (esta já deflagrada) está causando reações curiosas. Os docentes do departamento de física Leonardo Menezes, Mauro Copelli e Bruno Geraldo Carneiro da Cunha fizeram um abaixo-assinado virtual que conta, hoje, com cerca de 170 assinaturas de professores da instituição se recusando a interromper as aulas

Bate-bocas são travados diariamente e muitos e-mails têm sido trocados sobre o assunto. Em um deles, o presidente Regional da Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes), Evson Malaquias, professor do Centro de Educação (CE) da UFPE, questionou o fato de os signatários do protesto serem ligados ao mercado e à prefeitura do Recife e não participarem de nenhuma mobilização. Na grande maioria, são professores que, segundo ele, "nunca foram para qualquer ato em defesa da educação. No máximo votavam nas eleições sindicais pra que a gente trabalhasse por eles". De fato, pelo teor do abaixo-assinado e pelo nível dos comentários deixados, por exemplo, no blog Acerto de Contas, nota-se que a afirmação de Evson não está longe da verdade.



OS CEGOS DE LÁ - É muito comum encontrar quem critique os sindicatos e sua forma de atuação mas, entre professores, seria de se esperar um mínimo de coerência. O que se lê e escuta por aí não passa de um ajuntado de ofensas sem embasamento aos grevistas e nenhuma alternativa concreta à paralização. "É necessário demonstrar um mínimo de consideração com os nossos estudantes, já tão apenados pelas precárias condições de ensino a que são submetidos durante sua formação". Engraçado como, lendo o abaixo-assinado, temos a impressão de que a precarização surge do nada e os grevistas buscam, apenas, melhores salários.

Paciência! Não é preciso muito esforço para perceber que o problema do ensino público não são as greves ou a dita irresponsabilidade dos que se mobilizam, mas a precarização que faz com que esse tipo de manifestação surja. Não é nenhuma novidade que o governo FHC privilegiou a abertura de cursos privados em detrimento da melhoria e da ampliação de vagas nas Federais. Desde 2003, Lula governa dentro da mesma lógica, financiando as faculdades particulares e deixando os cursos públicos à mercê de investimentos empresariais.

O sucateamento das Federais é uma forma de convencer a sociedade de que o ProUni é a melhor saída para a educação brasileira, oferecendo bolsas (nem sempre integrais) em faculdades privadas para alunos de baixa renda. Ao questionar o fato de que, com o dinheiro das isenções de impostos concedidas a essas faculdades, se poderia criar o dobro das vagas nas Federais, já ouvi que a opção do governo se justificaria pela falta de qualidade do ensino público. Será que a sociedade brasileira tem noção que mais de 80% do conhecimento produzido no País vem das universidades públicas? E que, ao desobrigar o governo em relação às Federais, a Reforma Universitária fará com que a produção do conhecimento fique subordinada aos interesses de empresas investidoras, e não à função social que devem ter? Essas discussões parecem não interessar aos reacionários, que se recusam a participar das assembléias da categoria e chegam ao cúmulo de propor votações pela internet!



E OS CEGOS DE CÁ - Em matéria de cegueira, no entanto, reacionários e grevistas parecem estar empatados. É sabido que greves em universidades naturalmente não causam grande impacto, já que os alunos são os únicos diretamente prejudicados por isso, diferente do que acontece no caso dos transportes ou da saúde. Se em um campus distante como o da UFPE a situação já piora, imaginem somar o isolamento ao fato de haver um boicote organizado! Diante dessa conjuntura e, principalmente, do repúdio por parte dos alunos, uma greve nesse momento pode se tornar apenas uma humilhação para os setores de luta da UFPE.


Enquanto o sindicato não se define, estudantes e docentes realizam atividades sobre greve, reforma universitária e tentam fazer as pessoas se inspirarem nos recentes exemplos das paralizações e ocupações de reitorias ocorridas, por exemplo, na USP, UFAL e UFPA. Vitoriosos, os movimentos dessas Federais avançaram em aspectos importantes relacionados ao financiamento público e à assistência estudantil.

Mas é necessário lembrar, insisto, que cada estado tem uma conjuntura diferente para mobilização e é preciso trabalhar com o que temos em Pernambuco. Seria possível unir a indisposição para a greve e a vontade de lutar dos grevistas em um outro tipo de movimento, como uma semana unificada de mobilizações no centro da cidade (visibilidade é fundamental). Atos assim teriam mais impacto e muito mais apoio. Para isso acontecer, é imprescindível que os grevistas admitam discutir outro tipo de ação e que os engajados na campanha anti-paralização compareçam às assembléias e reuniões de suas categorias. As atividades estão acontecendo, é necessário, não só para este ano, que esses debates aconteçam. Sem posicionamentos inflexíveis e sem cegueira.

--------------------------------------------------------------------------------------------------

Foram citados:

Abaixo-assinado dos reacionários: http://bcunha.df.ufpe.br/peticao.php?read=yes

Blog Acerto de Contas:
http://acertodecontas.blog.br/atualidades/professores-da-ufpe-se-mobilizam-contra-a-greve/


Escrito por Lena Costa Carvalho às 20h21
[ ] [ envie esta mensagem ]


Meio blog, mea culpa.


Último post: 25/01/07. Não é que eu tenha parado de pensar em política, nem mesmo de escrever a respeito, o problema é justamente o contrário. Este tem sido um ano de muitos acontecimentos no Movimento Estudantil, o projeto da Reforma Universitária está tramitando no Congresso, a Coordenação Nacional de Lutas dos Estudantes (Conlute) e a Frente de Oposição de Esquerda da Une (FOE) se uniram na Frente de Luta Contra a Reforma Universitária, um calendário de mobilizações foi fechado em conjunto com os movimentos sindical e popular, o Congresso de Estudantes da UFPE foi uma tensão absoluta, a reabertura do DCE-Unicap já começou com manobras.

São tantas questões que eu poderia estar escrevendo diariamente, não fosse o fato de estar diretamente envolvida em tudo. Esse fator causa dois problemas que levaram ao abandono do blog por dois meses inteiros. O primeiro é a falta de tempo para redigir outra coisa que não sejam os inúmeros panfletos e boletins do movimento. A urgência imposta por todos os fatos é enorme, faz o tempo passar rápido e a pressa apenas aumenta. Diante disso, deu muita vontade de colocar aqui os textos que fiz para os grupos em que atuo, mas isso leva ao segundo fator. Quando iniciei o Politicar, deixei claro para mim mesma que não o misturaria à minha militância e pretendo continuar assim. Analisar conjuntura e dar pitacos é uma coisa, fazer material político é outra bem diferente.

Mea culpa feita, esse deve ser um feriado curto para conciliar as demandas das duas coisas, mas escrever no corre-corre já é tão cotidiano que se tornou natural. Retiremos as teias de aranha e voltemos, enfim, a politicar.


Escrito por Lena Costa Carvalho às 17h40
[ ] [ envie esta mensagem ]


A solução é alugar luta

A vida toda foi assim: as pessoas se sentiam prejudicadas, conversavam, se organizavam, mobilizavam outras e, aos trancos e barrancos, faziam manifestações – muitas vezes minúsculas, mas sinceras. Como resultado, a manutenção ou conquista de alguns direitos e aumentos ínfimos, mas, principalmente, muitos contatos e algum espírito de luta e companheirismo (pena a palavra ter ficado batida a ponto de ninguém mais pensar no sentido dela). Mas na Alemanha, que é primeiro mundo, as coisas mudaram muito desde o surgimento das primeiras organizações sindicais. Hoje, com alguns cliques e uma boa carteira, é possível colocar centenas de pessoas nas ruas, para todo tipo de manifestação.

A idéia surgiu no portal alemão erento.com, que oferece aluguel de todo tipo de coisa e criou essa alternativa avacalhada e brilhante para promotores de causas perdidas e movimentos políticos sem base de apoio. São jovens e adultos dispostos a lutar por qualquer causa, desde que recebam uma média de 150 dólares por dia.

Com a diferença da remuneração, isso lembra muito os ônibus de secundaristas do interior trazidos pela União da Juventude Socialista (UJS) para passeios nas passeatas do centro. Durante toda a passeata, essas pessoas bebiam o velho carreteiro, dançavam e pinotavam; um verdadeiro carnaval – isso quando não saiam para passear e voltavam na hora do transporte. Se pagassem mais do que a viagem e o lanche, talvez arrumassem pessoas mais profissionais, como na Alemanha.

Ta aí, não parece um bom investimento para o dinheiro da fábrica de carteiras de estudante da UNE? Quem sabe assim eles não conseguissem uma manifestação massiva em favor da Reforma Universitária de Lula?

A matéria sobre o aluguel de manifestantes pode ser lida em:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/01/070116_manifestantealuguel_ac.shtml


Escrito por Lena Costa Carvalho às 23h22
[ ] [ envie esta mensagem ]


Supersalário e super-retórica

“A Câmara tem um presidente comunista!” Lembro bem como assisti às comemorações dos antigos camaradas do PCdoB com uma pontinha de expectativa de que, talvez, Aldo colocasse um mínimo de ordem naquela casa. O primeiro mandato de Lula estava começando, ainda se ousava falar a palavra esperança. Pra dizer a verdade, não levei nenhum grande susto com as posições tomadas pelo governo petista, me dediquei à campanha de 2000 esperando pouco, basicamente que as coisas não piorassem. Mas, hoje, lendo a entrevista sobre os supersalários, concedida por Aldo Rebelo (PCdoB) ao Portal G1, da Rede Globo, o choque me fez até achar graça.

É uma coisa impressionante o poder da retórica, a maneira como as frases podem ser ditas e encadeadas de tal maneira que o maior absurdo parece fazer sentido. Aldo entende disso, mas devia saber que certos absurdos discurso algum seria capaz de tornar admissíveis. “A falta da imposição real de um teto para os Três Poderes dá margem a uma série de distorções e aumento de gastos porque, na prática, muitos benefícios de diversas categorias ficam fora do teto. E, além disso, há muitas aposentadorias, todas pagas pelos cofres públicos que, acumuladas, ultrapassam o limite constitucional. A unificação do teto acabaria de vez com os salários acima do teto”, argumentou o presidente da Câmara. Dar o maior salário possível a todos, portanto, seria mais simples que cortar os que têm extrapolado.

As comparações são inevitáveis. Afinal de contas, se juntando salários, auxílios e benefícios, a ONG Contas Abertas calcula que um deputado federal custe cerca de R$ 100 mil por mês aos cofres da União; como o reajuste do mínimo para R$ 380,00 é considerado o máximo por custar R$ 5,1 bilhões? E de que maneira, então, seria possível conceder 90,7% de aumento aos deputados, passando de R$ 12.847,20 para R$ 24.500?

Pois em outra entrevista, desta vez ao Estadão, Aldo tenta esclarecer, dizendo que não haverá aumento nos gastos com a Câmara, a verba extra foi garantida assim: R$ 36 milhões se referem às demissões feitas de 1.143 ocupantes de cargos de natureza especial, que são preenchidos sem concurso público; R$ 6 milhões são relativos a cortes de horas extras de servidores; R$ 25 milhões, à revisão de prioridades, como aquisição de mobiliário e equipamentos de informática. Além disso, segundo ele, foram adiadas (e não canceladas) as reformas de apartamentos funcionais e a construção de mais um Anexo. Com menos firulas e mais objetividade, o que a Câmara fez foi viabilizar uma economia considerável para os cofres públicos e, em seguida, tomá-la de volta, em vez de possibilitar o corte de gastos com a casa e, assim, o redirecionamento da verba.

Para terminar, Aldo tenta se esquivar da impopularidade de estar defendendo o supersalário. "Ao sustentar a posição da maioria dos parlamentares da Casa, ajo em sintonia com as prerrogativas que se esperam de um presidente de um Poder", argumenta ele, deixando claro qual seu compromisso enquanto deputado e presidente da Câmara.

A leitura da entrevista foi uma ironia dupla, já tive acesso a ela através do blog de Luciano Siqueira, uma das únicas pessoas no PCdoB que ainda respeito e, diria até ontem, confio. A divulgação acrítica desse material, no entanto, apenas ratifica o que eu argumentei ao negar meu voto ao velho companheiro. Acho até que ele entende bem que se trata de uma hipocrisia sem tamanho mas, como bom (?) militante, não ousaria contrariar o partido expondo tal opinião. E aos eleitores, aos que vivem com um salário mínimo, aos que nem isso possuem; quem será assim fiel? A expressão “comunistas de mesa de bar” nunca tinha feito tanto sentido.

As matérias citadas podem ser encontradas em:

http://lucianosiqueira.blogspot.com/2006/12/aldo-teto-nico-eliminar-supersalrios.html

http://www.estadao.com.br/ultimas/nacional/noticias/2006/dez/18/257.htm?RSS



Escrito por Lena Costa Carvalho às 11h18
[ ] [ envie esta mensagem ]


De carteirinha

Profissão: político. E dos mais hábeis. Completando 40 anos de carreira, Marco Maciel é a prova de que, no Brasil, estar no governo é uma questão de adaptação, de se moldar a todo e qualquer grupo que esteja no poder. Atualmente no terceiro mandato de senador, o danado nunca perdeu uma eleição, fosse ela direta ou indireta (nunca é muito lembrar que a peça governou Pernambuco na época da ditadura militar).

Ultimamente deram pra gritar por aí sobre o absurdo de política ter virado profissão, quando deveria ser uma espécie de temporária prestação de serviços à sociedade. Ora, não sei vocês, mas eu realmente gostaria que esses fulanos levassem a coisa tão a sério quanto eu levo a minha profissão. Se um deles acha que fazer política é o máximo e que tem o dom pra isso, que se candidate infinitamente, tem todo o direito – assim como nós temos de decidir se o dom dele é para fazer política ou politicagem e, portanto, reelegê-lo infinitamente ou não.

Um professor de cursinho, desses que fazem muito dinheiro, argumentou certa vez que os salários tinham mais é que ser altos, e que nunca assumiria uma secretaria em prefeitura, porque ganhava mais dando aulas (para uma turma super-lotada de gente que pagava muito, vale lembrar). Ainda acrescentou que, por isso mesmo, muita gente boa e competente nunca entraria na vida pública, porque não compensava. Pois três vivas a isso! Quem me dera ver o dia em que alguém assumisse essa profissão sem considerar a renda (e que renda!) como fator principal. Se os políticos tivessem um terço do amor que possuem os professores normais, que não fazem dinheiro algum e continuam ensinando, as coisas seriam bem diferentes.

Mas há elementos muito distintos nessa paixão, porque há dois fazeres muito diferentes na política. Uma coisa é o gosto pela luta, pelo enfrentamento, pelo sentir-se representante e representado perante quem quer que seja; outra bem diferente é o amor ao cargo, ao poder e ao salário - que de baixo não tem nada.

Marco Maciel é o rei do segundo caso, o espelho de tantos outros que desejam um dia estar, como ele, em todos os governos do Brasil, independente do caráter ou da ideologia em questão. Duas caras não seria uma boa expressão. A trepeça tem uma cara apenas, a do poder. Ora, a pessoa que nasce para a política não vai abandoná-la porque um adversário ganhou a eleição, mas isso não significa trabalhar com qualquer um.

Fazer oposição, obviamente, não significa passar quatro anos fazendo estardalhaço, é preciso saber reconhecer os pontos positivos dos adversários e, eventualmente, apóia-los. Por outro lado, desconfio de político que não briga. Não é pelo simples gosto de ver o circo pegar fogo e a TV Senado reunir grupos de espectadores eufóricos no País inteiro. Verdade que os embates me agradam sempre, mas o problema da suposta paz na política é o que ela esconde em termos de alianças indecentes, compra de votos e articulações pelo poder.



Escrito por Lena Costa Carvalho às 09h34
[ ] [ envie esta mensagem ]


Quanto pior, pior

Uma certeza. Era assim que eu pensava na revolução nos primeiros tempos de contato com o marxismo. “Não é possível que as pessoas sejam exploradas e repisadas por tanto tempo. Uma hora elas não vão agüentar mais e a coisa explode”.

Era fácil e prazeroso acreditar que, ao chegar a determinado nível de exploração, os trabalhadores se levantariam contra a burguesia em uma revolução que acabaria com a propriedade privada dos meios de produção, as classes sociais, a exploração enfim. É verdade que Marx e Engels deixavam clara a necessidade da luta e de um direcionamento partidário, mas a sensação de que as coisas acontecerão de forma natural é recorrente. Tanto que é normal, em discussões entre pessoas da esquerda, ouvir um acusando o outro de estar seguindo a lógica do ‘quanto pior, melhor’.

Reconfortante perder uma eleição, uma greve, etc e pensar “deixa, agora eles verão a piora e entenderão que escolheram mal” ou “tudo bem, quanto mais eles nos pisam, mais nos unimos e fortalecemos”. O problema é que essa resignação comumente se transforma na cômoda crença de que a mudança é inevitável e, portanto, independente de agirmos ou não para tanto. Mais do que isso, a idéia leva a torcer contra, agir pela negativa, esquecendo que os maiores prejudicados com um mau governo são as pessoas, não os governantes e grupos que queremos atingir. Não é fácil, mas é preciso ter maturidade tanto para levantar a voz contra os que elegemos quanto para apoiar os acertos de nossos rivais.

Além do mais, miséria nunca foi instrumento de conscientização. Não é simplesmente o fato de os famintos só terem cabeça para pensar no pão, mas que o extremo dessa situação leva a duas atitudes igualmente inúteis para uma virada de jogo. A primeira é a submissão absoluta, a mendicância que, passiva, agradece a Deus e aos bondosos qualquer moeda ou prato de comida; a segunda é a revolta do tipo metralhadora giratória, a criminalidade que mata sem pesar, porque se ninguém valorizou sua vida, não haveria motivo para poupar a dos outros.

O fim da ingenuidade revolucionária não é entender a mudança como impossível, mas tomar nas mãos a tarefa de fazê-la. Entre as contradições capitalistas apontadas pelo marxismo, talvez a principal seja a necessidade permanente de desenvolvimento das forças produtivas, que leva os trabalhadores a questionarem a estrutura social. Longe do que apregoa Cristóvam Buarque, a educação não tem nada a ver com revolução doce. Pelo contrário, o conhecimento leva à ação, e nenhuma atitude contra o sistema há de ser pacífica.

Escrito por Lena Costa Carvalho às 11h45
[ ] [ envie esta mensagem ]


Só faltou a marcha fúnebre

Alegria,festa, esperança, palavras de ordem berradas até a rouquidão, passos rápidos para acompanhar a caminhada do eleitor indeciso, debates, rivalidade com as outras forças políticas, jingles de candidatos entoados em coro e com gosto, comitês e praças lotados para a apuração e, por fim a cachaça para comemorar ou afogar as mágoas. Quem saiu às ruas de Olinda ou Recife em busca desses cenários típicos nos dias de eleição quebrou a cara. Com exceção dos santinhos espalhados pelo chão (jogados antes do horário de votação) e um ou outro aglomerado de eleitores adesivados, pouca coisa lembrava que era dia de escolher presidente governador e toda uma reca legislativa para os próximos quatro anos, no mínimo.

Teve até entrevistado dizendo ao JC de segunda-feira que se sentiu na Noruega! Noruega? Obrigada, mas eu passo. Sou brasileira e, como tal, quero ter o direito de festejar as eleições, ou até de sair apenas para protestar contra elas; mas sempre com o barulho e o fuzuê que nos é característico. A aberração que aconteceu ontem não tem nada a ver com civilidade, e sim com opressão da braba.

O tal balanço positivo feito pela Polícia Federal é resultado de um escândalo de policiais nas ruas e quatro blitz do TRE amedrontando militantes e dispersando agrupamentos “que poderiam influenciar o voto”. Todas essas medidas, comemoradas como avanço, beneficiaram apenas aqueles que já tinham voto garantido pelas propagandas milionárias e não precisaram se preocupar com a única arma eficaz dos pequenos adversários, a boca-de-urna de militantes capazes de agüentar nove horas de sol na cabeça por uma causa. Sim, porque os que costumavam fazê-lo por 15, 20 reais, invariavelmente terminavam a distribuição de papéis logo cedo e voltavam pra casa, ou ficavam batendo papo e tomando cerveja (na prática, a lei seca deixava de vigorar por volta das 15h, ou menos).

Além do endurecimento contra a boca-de-urna, contribuíram para o cenário o desgaste da política com os tantos escândalos de corrupção e a descrença da própria militância de esquerda, que sabe (ainda que não assuma) que o governo Lula decepcionou mais que o esperado.

Transformar o dia da eleição presidencial num Domingo de praia qualquer foi a maior prova de descaso que esse povo poderia ter dado em relação à política. A demonstração, no entanto, não foi acompanhada por protestos, atitudes concretas ou mudança de postura política. Tendo caráter tão passivo, a pasmaceira não podia ter resultado senão em absurdos como Inocêncio Oliveira (PL) ser o segundo Federal mais votado em Pernambuco, com 181.007 votos. E ainda há quem diga que a democracia brasileira se fortalece a cada ano...


Escrito por Lena Costa Carvalho às 00h55
[ ] [ envie esta mensagem ]


Mas que falta de educação...

O portal Universia, voltado para estudantes universitários de todo o país, preparou um especial com as propostas dos principais candidatos à presidência para a educação superior. O material, acompanhado de análise de especialistas um tanto quanto duvidosos é curto, mas dá o que discutir. Participaram Critovam Buarque, Geraldo Alckmin, Heloisa Helena, Luciano Bivar (até me espantei) e Lula.

Assim como no debate que aconteceu há algumas horas, Lula e sua cadeira não disseram muito, mas um único tópico resume tudo e é o suficiente para muita raiva, a Reforma Universitária, que já foi encaminhada ao Congresso, em sua 4ª versão. O projeto, cujas bases foram desenvolvidas na gestão de FHC, é uma caminhada para a privatização do ensino superior, com investimentos públicos nas instituições privadas através do ProUni, que já está funcionando, via Medida Provisória.

Principal ponto da reforma, o ProUni consiste em conceder isenção de impostos e pagar mensalidades para que estudantes provenientes de escolas públicas estudem em faculdades e universidades privadas. O motivo dessa inversão é que, com a abertura exagerada de faculdades que aconteceu desde os anos de FHC até agora, os empresários do setor começaram a sentir nos bolsos a falta de alunos pagantes. Para resolver o problema e sair bem na fita, o governo compra essas vagas, com um dinheiro que deveria estar sendo utilizado na ampliação das vagas nas Federais (e que ninguém venha me dizer que a questão são os alunos das escolas públicas, porque é pra isso que existem as cotas).

Além disso, o projeto traz uma falácia das mais incríveis, ao propôr que se limite em 30% o investimento estrangeiro no ensino superior. Apesar da impressão em contrário, a lei atual não permite interferência alguma de capital estrangeiro, de maneira que o que se faz é abrir a porta para isso. A entrada de verba privada (nacional) nas universidades pode ser positiva, se pontual e muito bem controlada, mas permitir que determinados centros e cursos dependam disso é arriscado tanto para a formação profissional quanto para o futuro do país. Isso porque, ao colocar dinheiro no ensino, cada emprese exige a contrapartida que lhe interessa, limitando a produção do conhecimento em outras áreas, inclusive as que poderiam ser mais úteis socialmente.

Na análise das propostas lulistas, o assim descrito "especialista em pesquisas e estudos de mercado no setor educacional" Ryon Braga afirma que "o custo do aluno nas Universidades Públicas é, no mínimo, três vezes mais do que no setor privado" e que "as IES públicas que estão sendo abertas e as que estão sendo prometidas, juntas, representam um aumento de pouco mais do que 10% nas vagas públicas" e, ainda, que contribuem "para a queda da qualidade no ensino público".

Queria muito saber de onde esse fulano tirou tal informação, porque, segundo estudo feito pela Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (ANDES), a situação é contrária. Com o valor do ProUni, somando mensalidades e isenções de impostos, seria possível criar o dobro dessas vagas nas públicas - o que faz todo o sentido já que nas Federais se paga os salários e a manutenção da estrutura, além das assistências estudantis, enquanto as mensalidades das privadas incluem o lucro dos empresários, que não estão no ramo por querer prestar serviços à sociedade, e sim porque o mercado é bom.

Além disso, é preciso ter em mente que ampliar vagas nas públicas não é apenas construir novas instituições. Se fossem realizados os concursos para professores e feitas as melhorias estruturais necessárias, as Federais poderiam oferecer muito mais vagas. Ainda assim, a abertura de novas universidades públicas é importante nas áreas distantes das grandes cidades, possibilitando o acesso de pessoas que ou não conseguem cursar, ou concluem o curso e acabam se mudando de vez para os centros, emperrando o desenvolvimento das regiões mais afastadas.

Dizer que esse projeto "não terá nenhum impacto sobre a qualidade do ensino no Brasil" é, no mínimo, ignorância.

Quanto a Cristóvam e Alckmin, pode parecer bizarro, mas eles defendem praticamente as mesmas propostas em relação ao ensino superior. Ambos cometem, por exemplo, o absurdo de considerar o ProUni um instrumento democratizador. Cristóvam tem uma concepção de que uma instituição privada pode ter uma importância pública (e, de fato, pode) e que, por isso, o governo dar dinheiro a elas seria perfeitamente normal. Ora, investir em empresas, para que cresçam e gerem empregos em uma área na qual o Estado não atua diretamente é uma coisa; financiar faculdades e universidades privadas, em detrimento das públicas, é totalmente outra! Com a aceitação dessa idéia, o governo vai, gradativamente, tirando de suas costas a obrigação de garantir educação pública, deixando as Federais e Estaduais à mercê dos interesses do mercado, e isso não é, de maneira alguma, bom para o interesse público.

Além disso, a proposta de investimento nas privadas se choca com a idéia de programas de apoio ao estudante universitário carente, já que nunca será possível criar casas do estudante e restaurantes universitários em todas as universidades privadas, de maneira que acaba saindo muito mais caro pagar os custos desses alunos do que se eles estivessem nas Federais. Da mesma maneira, o ensino à distância, que pretendem ampliar, não é maneira de democratizar o acesso à universidade, e sim de relegar aos excluídos uma atenção insuficiente, além de desvalorizar o papel fundamental do professor e do convívio com uma turma em sala de aula. De diferente no programa de Cristóvam, só a velha idéia da substituição do vestibular por exames realizados ao longo dos três anos do ensino médio, que bem poderia pegar.

Nas propostas enviadas pela equipe de Heloísa Helena, a diferença de princípios é clara desde a análise inicial, quando se chama a atenção para o fato de que "o governo pouco investiu na criação de vagas públicas, tanto que a esmagadora maioria das vagas ofertadas nos vestibulares continua sendo privada. Ao invés disso, preferiu o caminho da isenção fiscal via o ProUni, deixando de arrecadar recursos e garantindo o preenchimento das vagas ociosas nas escolas particulares, muitas de qualidade temerária". As propostas são no sentido de aumentar as vagas preferencialmente no setor público e presencial, além de retomar a fiscalização do sobre a abertura de instituições particulares.

No fim das contas, de todas as análises feitas para o Universia, a melhor foi a da pesquisadora Cibelle Yahn Andrade, desperdiçada com a mini-proposta pés nas nuvens de Bivar.

Aos que se interessarem, as propostas e análises podem ser lidas no endereço:
http://www.universia.com.br/materia/materia.jsp?materia=12348

E a 4ª versão do projeto de Reforma Universitária é só pedir que eu mando.

Escrito por Lena Costa Carvalho às 04h20
[ ] [ envie esta mensagem ]


Robozinho é a mãe! Pesquisador sugere que viremos máquinas para otimizar o tempo

Nada de ciborgues, microchips ou programações computadorizadas. O pesquisador Christian Barbosa, da empresa de consultora Tríade do Tempo (SP) propõe uma robotização mais simples. E mais deprimente.

Após descobrir que nem todas as 24h do dia do brasileiro são voltadas para o que é “urgente e importante” (que descoberta...), Barbosa defende que dividamos nosso tempo da seguinte maneira: 70% para as cosias importantes, 25% para as emergenciais e 5% para as circunstanciais/fúteis.

Agora imagine você: 15min para andar feito zumbi pela casa ao acordar; 5min para ouvir uma música qualquer que anime pra começar o dia, 20min para as pausas para o café/lanche/conversa jogada fora durante as oito horas de trabalho, 20min para manzanzar pela internet ou para bater papo com os amigos e, de volta pra casa, 30min minutos para assistir televisão. Pronto, acabaram suas 1h20min de futilidades e não deu tempo nem de ver a novela das oito – quem dirá o guia eleitoral.

“O desafio é manter a vida baseada no que é mais importante”, falou o autor da pesquisa à Agência Estado, em discurso reproduzido na Revista JC deste domingo (17). Aí eu pergunto se esse pesquisadorzinho já parou para pensar em tantas pesquisas que já mostraram que a “futilidade” de jogar conversa fora com os colegas é o que garante que as pessoas se sintam bem no ambiente de trabalho e, assim, exerçam seu papel com gosto e qualidade? Ou que conversar com um amigo pode ser muito mais importante que tantas outras coisas que ele tenha pensado para a lista de afazeres urgentes? Não, alguém precisa lembrar a essa gente que ser feliz não pode ser algo para segundo plano, e que ninguém consegue isso sem as pequenas “inutilidades” de que tanto precisamos.

Precisamos de tempo, sim, mas não deixando de ter prazer. Qualquer um abriria mão, por exemplo, os 30min esperando um ônibus que parece não vir nunca, a quilométrica fila do banco, os 60min no posto de carregamento do passe fácil/difícil, o sobe e desce de escada porque os elevadores da universidade não funcionam, as horas na espera por atendimento no posto de saúde, a madrugada na fila do INSS. E quem não dispensaria o mau humor que gera todo esse tempo desperdiçado, unido à consciência de que esses fatores poderiam ser resolvidos com medidas rápidas, se houvesse vontade política?

Mais chocante que a conclusão da tal pesquisa, no entanto, foi a reprodução desse discurso pelos jornalistas – especialmente no caso da Revista JC, que sempre teve uma postura avançadinha, mas agora me dá o desgosto de ver um ctrl + c e ctrl + v em um texto acrítico enviado por uma agência de notícias. Tinham e desperdiçaram a chance de pegar a informação e questioná-la, porque ninguém aqui é máquina - e quem tiver vontade de ser, vai acabar é doente. Mas, deixa estar, que estimulem isso e deixem esse povo todo ficar deprimido; aí vamos ver o que acontece com o nível de produção com o qual o pesquisadorzinho tanto se preocupa.


Escrito por Lena Costa Carvalho às 09h02
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico
26/08/2007 a 01/09/2007
24/06/2007 a 30/06/2007
01/04/2007 a 07/04/2007
21/01/2007 a 27/01/2007
17/12/2006 a 23/12/2006
19/11/2006 a 25/11/2006
15/10/2006 a 21/10/2006
01/10/2006 a 07/10/2006
24/09/2006 a 30/09/2006
17/09/2006 a 23/09/2006
10/09/2006 a 16/09/2006
27/08/2006 a 02/09/2006
20/08/2006 a 26/08/2006
13/08/2006 a 19/08/2006




Outros sites
 Fotolog
 no mínimo
 Blog Tereza Cruvinel
 Blog Jorge Bastos Moreno
 Blog Ricardo Noblat